top of page

01. Inspiração | Paul Sermon

  • Writer: Armanda Baptista
    Armanda Baptista
  • Nov 29, 2025
  • 4 min read


Telematic Dreaming de Paul Sermon, 1992
Telematic Dreaming de Paul Sermon, 1992



Para esta reflexão, escolhi a obra Telematic Dream, de Paul Sermon, com o objetivo de explorar os seus aspetos estéticos, técnicos, relacionais e funcionais, tomando como referência o método a/r/cográfico. A análise incide sobre a forma como a média-arte digital redefine a relação entre o público, o corpo e o ambiente virtual através de dispositivos tecnológicos que mediam presença e interação.



Aspetos Estéticos

Telematic Dream, de Paul Sermon, é uma obra inspiradora no âmbito da exploração da interação mediada digitalmente, que propõe uma reflexão sobre a presença, a intimidade e as dinâmicas de comunicação no espaço virtual. Esteticamente, desafia as fronteiras entre o físico e o virtual, criando um espaço híbrido onde os participantes interagem através de projeções digitais (Beiguelman, 2013). Este espaço, criado por Sermon, estimula uma interação que transcende limitações físicas, enquanto as imagens, simultaneamente realistas e efémeras, criam uma estética de simultaneidade e deslocamento que dissolve a distância geográfica e a tecnologia envolvida na instalação, imergindo os participantes. Nesta experiência, o participante abdica do seu sentido tátil e do ato de tocar, substituindo as suas mãos pelos olhos.


A simplicidade visual da obra reforça a sua força poética ao abdicar de elementos excessivamente tecnológicos, sendo a estética concebida para servir o conceito e promover uma conexão emocional profunda influenciada pela interação do público. Esta abordagem está alinhada com as ideias de Dewey (1934/2010, p. 122) em Arte como Experiência, ao tornar a estética funcional na vivência do público, onde a interação entre dois participantes, mediada pela tecnologia, constitui a experiência total. Assim, promove-se a interação direta e emocional como parte central da obra, estabelecendo uma relação que lhe confere significado.


Aspetos Técnicos

Criada em 1992, Telematic Dream destaca-se pela utilização inovadora de tecnologias ainda emergentes na época, como a videoconferência e sistemas de composição de vídeo em tempo real. Sermon utiliza câmaras e projeção para fundir dois espaços fisicamente separados, criando a ilusão de um único espaço partilhado e permitindo que os participantes interajam de forma visual e emocional apesar da separação física.


Apesar das limitações tecnológicas do início dos anos 1990, a obra apresenta uma fluidez notável na forma como integra hardware e software, revelando um domínio técnico que sustenta a dimensão conceptual. Assim, oferece uma experiência intuitiva que transcende as limitações tecnológicas da época e reflete a sofisticação artística e conceptual do autor.


Aspetos Relacionais

Em Telematic Dream, a relação com o público é o núcleo da obra. Os participantes são simultaneamente espectadores e performers, tornando-se coautores da experiência. A interação entre duas pessoas, separadas fisicamente mas unidas virtualmente, torna a obra mutável e imprevisível. Cada gesto é respondido pelo outro corpo projetado, criando um diálogo silencioso que convoca intimidade, curiosidade ou estranheza.


Este envolvimento transforma o público em parte integrante do conceito, explorando questões de intimidade e comunicação num espaço mediado tecnologicamente. Ao desmaterializar as barreiras físicas, Sermon convida o público a refletir sobre a natureza das relações humanas na era digital, desafiando conceitos tradicionais de proximidade, presença, identidade e subjetividade em ambientes tecnologicamente mediados. O artista antecipa debates contemporâneos sobre virtualidade, telepresença e subjetividade em espaços híbridos.


Aspetos Funcionais e Impacto

Funcionalmente, Telematic Dream cumpre com precisão o objetivo de explorar novas formas de relacionamento humano através da tecnologia. Ao permitir uma interação sensível entre corpos separados, a obra desafia a perceção de distância e aproximação, questionando os limites entre o natural e o artificial.


O impacto da obra manifesta-se tanto no plano sensorial como no conceptual, provocando uma reflexão sobre a construção da intimidade em ambientes virtuais, sobre a transformação da presença física em presença mediada e sobre a forma como a tecnologia reconfigura as relações humanas. Mesmo três décadas depois, a obra permanece relevante, abordando tópicos que continuam centrais na sociedade contemporânea.


Conclusão

Telematic Dream permanece uma obra emblemática no campo da média-arte digital, pela capacidade de combinar simplicidade formal, inovação tecnológica e profundidade conceptual. Através da a/r/cografia, compreende-se como a obra integra criação, reflexão e prática artística, revelando a potência da tecnologia não apenas como ferramenta, mas como agente transformador da experiência estética e relacional. Sermon demonstra que a presença mediada pode gerar encontros autênticos e emocionalmente significativos, abrindo caminho para novas formas de interação artística e humana na era digital.


Referências Bibliográficas:


Beiguelman, G. (2013). Arte pós-virtual: criação e agenciamento no tempo da internet das coisas e da próxima natureza. In Cyber-arte-cultura : a trama das redes (pp. 146-176). Museu Vale.


Dewey, J. (2010). Arte como experiência (M. C. Guimarães, Trad.). São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1934).


Marcos, A. F. (2017). Artefacto computacional: elemento central na prática artística em arte e cultura digital. Revista Lusófona de Estudos Culturais, 4(1) (pp. 129-147). https://doi.org/10.21814/rlec.182


Veiga, P.A. (2021). Método e registo: uma proposta de utilização da a/r/cografia e dos diários digitais de bordo para a investigação centrada em criação e prática artística em média-arte digital. Rotura - Revista De Comunicação, Cultura E Artes, (2) (pp. 16-24). https://publicacoes.ciac.pt/index.php/rotura/article/view/47


Comments


© 2025 by ARMANDA BAPTISTA

bottom of page