05. Relatório: Prototipagem
- Armanda Baptista
- Jun 8
- 7 min read
1. Introdução
Após a fase de conceptualização, na qual foram exploradas diferentes possibilidades formais e espaciais para a instalação, foi selecionada a “Variação 3 — Escultura sobre almofada com projeção” como direção principal para o desenvolvimento da obra.
Esta decisão resultou da sua maior coerência conceptual com os temas centrais do projeto, nomeadamente a tensão entre repouso e instabilidade, permanência e transformação, bem como da sua capacidade de integrar de forma mais consistente a relação entre corpo escultórico, projeção de partículas e espaço atmosférico. Outro fator relevante para esta escolha relacionou-se com as possíveis limitações do espaço destinado à exposição final dos trabalhos do Doutoramento em Média-Arte Digital da Universidade Aberta, nomeadamente restrições de escala, dificuldades de afixação de estruturas de projeção e condicionantes técnicas associadas ao espaço disponível. Desta forma, a seleção desta configuração procurou já responder antecipadamente às limitações espaciais e expositivas identificadas.
A presente fase de prototipagem centra-se, assim, na materialização progressiva desta configuração, incidindo sobre o desenvolvimento técnico da instalação, os estudos de escala, os testes de materialidade, as soluções de projeção e a integração entre componentes físicas e digitais.
1. Desenvolvimento da instalação selecionada
1.1 Configuração espacial escolhida
A instalação desenvolve-se em torno de uma escultura em posição fetal colocada sobre uma almofada branca, concebida enquanto elemento simultaneamente funcional e simbólico. A almofada introduz uma relação ambígua entre repouso, proteção e instabilidade, funcionando como suporte de um processo contínuo de transformação visual. Sobre esta superfície é projetado um campo de partículas em movimento contínuo, semelhante a areia digital, que envolve simultaneamente a almofada e o espaço circundante. A erosão não atua diretamente sobre o corpo escultórico, mas sobre o ambiente que o rodeia, deslocando a transformação para um plano atmosférico e conceptual.
A experiência proposta mantém uma natureza contemplativa. O visitante não interage diretamente com o sistema, sendo antes convidado a observar a tensão entre imobilidade e movimento, permanência e transformação. O desenho da instalação procura, assim, construir um espaço de desaceleração e observação silenciosa.
A figura seguinte apresenta os diferentes estados de desenvolvimento do desenho da instalação até chegar à configuração final atualmente em desenvolvimento, representada na Simulação 3 da Figura 1.

2. Desenvolvimento da escultura
2.1 Primeiros estudos de modelação tridimensional
Durante esta fase foram realizados diversos estudos relacionados com a modelação e materialização da escultura. Numa fase inicial foram desenvolvidos testes de modelação tridimensional recorrendo a uma plataforma baseada em inteligência artificial, nomeadamente Meshy, com o objetivo de converter imagens de referência em modelos 3D preliminares e explorar rapidamente proporções, volumetria e postura.
Contudo, os primeiros resultados não corresponderam ao pretendido em termos formais e estéticos. Paralelamente, apesar de possuir conhecimentos em SketchUp, verifiquei que as exigências técnicas do projeto ultrapassavam as minhas competências atuais em modelação orgânica avançada e requeriam software e capacidade computacional mais robustos.
Neste sentido, foi estabelecida uma colaboração com com apoio técnico especializado em modelação e simulação 3D, com quem desenvolvi o processo de escultura digital. Esta colaboração permitiu não apenas avançar na concretização formal do modelo, mas também acompanhar e compreender melhor as diferentes etapas do processo técnico.
Após os primeiros testes exploratórios, iniciou-se o desenvolvimento do modelo final da escultura recorrendo a softwares de modelação e escultura digital, nomeadamente 3ds Max e ZBrush. O objetivo passou por construir uma forma simplificada e escultórica do corpo humano, mantendo uma linguagem visual minimalista e evitando um excesso de detalhe anatómico.
Ao longo deste processo foram realizados vários ajustes relacionados com postura, proporções, escala e legibilidade formal da escultura. A posição fetal foi mantida como elemento central da composição, reforçando simbolicamente as ideias de recolhimento, vulnerabilidade, suspensão e origem.
Paralelamente, procurou-se garantir que a superfície da escultura permitisse uma integração visual coerente com a projeção de partículas, funcionando simultaneamente como objeto físico e superfície parcialmente recetiva à luz.
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2.2 Testes de impressão e acabamento
Posteriormente, foram realizados os primeiros testes de impressão 3D em escala reduzida, com o objetivo de avaliar a presença física da escultura, a sua legibilidade formal e possíveis problemas de design.
Foram igualmente experimentadas diferentes possibilidades de acabamento, incluindo versões em branco matte e preto brilhante, considerando a forma como cada superfície reage à projeção de luz e partículas.
A almofada foi estudada enquanto elemento central da instalação, não apenas como suporte físico, mas também como componente conceptual da obra. Foram analisadas questões relacionadas com escala, textura e comportamento da superfície perante a projeção.
Durante os testes preliminares surgiu igualmente a preocupação com o efeito do peso da escultura sobre o tecido da almofada, considerando-se a forma como essa deformação poderia afetar o resultado visual da projeção.
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3. Desenvolvimento da projeção e partículas
3.1 Estudos visuais da areia digital e animação de partículas
A componente visual da instalação centra-se na projeção de partículas digitais inspiradas no comportamento da areia. Foram realizados primeiros testes de animação e integração visual entre projeção, escultura e superfície.
Embora inicialmente tivesse considerado desenvolver esta componente apenas através de vídeo, optei posteriormente pela utilização de sistemas de partículas tridimensionais, de forma a obter um comportamento visual mais orgânico e atmosférico. Dada a complexidade técnica do processo e a necessidade de elevada capacidade computacional para renderização, esta componente está também a ser desenvolvida em colaboração com o mesmo profissional que participa na modelação da escultura.
Os softwares utilizados nesta fase incluem 3ds Max e TyFlow para desenvolvimento e simulação das partículas.
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3.2 Sistema de projeção
A projeção foi inicialmente pensada numa configuração vertical top-down, permitindo envolver simultaneamente a almofada e o espaço circundante. Paralelamente, foi adquirido um projetor de curta distância, permitindo iniciar futuros testes reais de projeção assim que a escultura final em escala real estiver concluída.
Paralelamente, foram analisadas diferentes soluções técnicas relacionadas com projeção, nomeadamente distância, intensidade luminosa, resolução e adaptação ao espaço expositivo. Até ao momento, ainda não foi realizado nenhum teste físico de projeção, existindo apenas simulações digitais preliminares.
4. Estrutura e arquitetura do artefacto
4.1 Componentes da instalação
A instalação é composta por diferentes elementos físicos (Figura 2) e digitais que funcionam de forma integrada:
uma escultura tridimensional do corpo em posição fetal;
uma almofada que serve simultaneamente como base escultórica e superfície de projeção;
uma mesa de suporte para elevação da instalação;
um sistema de projeção de vídeo de curta distância;
uma animação digital de partículas;
um dispositivo de reprodução do conteúdo visual (i.e., computador);
uma componente sonora ambiente (i.e., colunas de som).

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4.2 Adaptação ao espaço expositivo
Após a formulação inicial do projeto, foi realizada uma primeira reunião com o Professor Pedro Pestana, durante a qual foram discutidas as condições do espaço expositivo disponível para apresentação dos trabalhos.
A instalação tinha inicialmente sido concebida numa escala superior, prevendo-se a sua colocação diretamente no chão. Contudo, perante as limitações espaciais identificadas e a necessidade de acomodar múltiplas instalações no mesmo contexto expositivo, tornou-se necessário reconsiderar a escala e configuração da obra.
Durante esta reunião foi discutida a possibilidade de utilização das cabines de tradução, por permitirem melhores condições de controlo de luz e maior isolamento visual.
4.3 Redesenho da instalação
Na sequência destas considerações, foi desenvolvido um redesenho da instalação adaptado a uma escala mais reduzida. Esta nova versão introduz uma mesa de suporte, permitindo elevar a obra e melhorar as condições de observação no espaço expositivo.
Foi igualmente considerada a possibilidade de adaptação da obra a uma configuração vertical, funcionando a tela como estrutura de suporte para a almofada e escultura, caso a instalação de projeção top-down não seja viável no espaço final.
Este redesenho procurou manter intacto o núcleo conceptual da obra, ajustando apenas aspetos relacionados com escala, implantação e logística expositiva.
Hipóteses de adaptação (Figura 3)
A hipótese 1 considera as dimensões da cabine de tradução, enquanto a segunda e a terceira propõem uma estrutura independente que possa ser construída e colocada num espaço disponível. Estas últimas surgiram com o intuito de bloquear o máximo possível de luz ambiente, permitindo que a obra seja experienciada com a máxima qualidade visual possível em ambiente escuro, dado que um dos principais elementos consiste na projeção de conteúdo sobre uma textura física (a almofada).

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5. Estratégia de produção
A produção da instalação foi pensada entre dois contextos geográficos distintos: Portugal e Emirados Árabes Unidos. Alguns elementos serão produzidos ou adquiridos nos Emirados Árabes Unidos para permitir testes preliminares, nomeadamente projetor de vídeo, a almofada e os primeiros testes de impressão 3D.
Outros componentes, particularmente aqueles mais difíceis de transportar, serão produzidos em Portugal, incluindo possíveis estruturas de suporte e componentes expositivos.
Esta estratégia procura equilibrar viabilidade técnica, custos de transporte e necessidades de experimentação ao longo do processo de desenvolvimento da obra.
6. Considerações técnicas e problemas identificados
Ao longo da fase de prototipagem surgiram diversas questões técnicas relacionadas com projeção, espaço e condições expositivas.
Uma das principais preocupações prendeu-se com a escolha do projetor, sobretudo devido à necessidade de conciliar portabilidade, resolução e intensidade luminosa. Verificou-se que muitos projetores portáteis apresentam limitações ao nível dos lumens, tornando-se potencialmente insuficientes perante condições de luz ambiente não controladas.
Perante esta situação, foram consideradas diferentes soluções de controlo de luz, incluindo a possibilidade de construção de uma estrutura própria em madeira e tecido preto, permitindo criar um ambiente mais controlado para visualização da instalação.
Foram igualmente identificadas questões relacionadas com:
peso da escultura sobre a almofada;
deformação da superfície de projeção;
viabilidade da projeção vertical;
integração espacial da instalação;
circulação do visitante.
Estas questões permanecem em análise e continuarão a ser desenvolvidas na fase seguinte do projeto.
7. Conclusão e estado atual da prototipagem
A fase de prototipagem permitiu transformar a proposta conceptual inicial numa configuração espacial e técnica progressivamente mais concreta, revelando simultaneamente limitações, adaptações e novas possibilidades formais. Mais do que uma simples etapa de execução, esta fase funcionou como espaço de negociação contínua entre intenção conceptual, materialidade, tecnologia e contexto expositivo.
À data deste relatório, encontra-se concluída a fase inicial de prototipagem da instalação, incluindo o desenvolvimento conceptual da configuração escolhida, os primeiros testes de modelação tridimensional, impressão 3D, animação de partículas, estudos de escala e adaptação ao espaço expositivo.
Foram igualmente identificadas as principais necessidades técnicas e logísticas para a concretização da obra, permanecendo em desenvolvimento a integração final entre projeção, escultura, som e espaço expositivo.
A fase seguinte centrar-se-á na consolidação técnica da instalação, na realização de testes de implantação e visualização, bem como na avaliação das diferentes soluções expositivas consideradas.



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