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04. Relatório: Conceptualização

  • Writer: Armanda Baptista
    Armanda Baptista
  • Mar 5
  • 6 min read

1. Introdução

Após a formulação da intenção e a exploração de duas possíveis configurações instalativas, a fase de conceptualização centrou-se na consolidação de uma hipótese artística principal. O objetivo passou por aprofundar a coerência conceptual do projeto e testar a sua tradução espacial, estética e experiencial.


Embora tenha sido considerada uma abordagem interativa baseada na resposta direta à presença do espectador, tornou-se progressivamente evidente que a dimensão contemplativa e ambiental revela maior alinhamento com a investigação desenvolvida até aqui e com a procura de criar, desde cedo, uma obra mais conceptual e contemplativa que traduza a minha relação pessoal com o artefacto a produzir.


A conceptualização assume, portanto, a instalação contemplativa como foco principal, aprofundando o seu conceito, narrativa e desenho. Esta etapa corresponde a um exercício de aproximação entre ideia e forma, procurando perceber de que modo a relação entre corpo, matéria e mediação digital poderá gerar uma experiência coerente com a intenção definida. O conceito “Erosão e o Corpo” mantém-se como núcleo comum. O que se conceptualiza aqui é a forma como esse núcleo se torna experiência.


2. Conceptualização

2.1 Conceito

O conceito central assenta na erosão enquanto processo contínuo, silencioso e inevitável que atua sobre matéria, corpo e identidade. A erosão é entendida como metáfora da ação do tempo e das forças externas que transformam sem espetáculo, mas com persistência. A areia surge como materialidade estruturante do projeto, por concentrar simultaneamente a ideia de origem e de dissolução.


O corpo não é representado como elemento em decomposição. Pelo contrário, surge como presença escultórica estável, recolhida numa posição fetal. A erosão manifesta-se no ambiente que o envolve. O corpo permanece, enquanto o mundo à sua volta se move.

Visualmente, a areia e o corpo devem permanecer reconhecíveis, para que a experiência não se perca numa abstração total. Essa legibilidade, no entanto, não implica literalidade narrativa, mas sim ancoragem material e perceptiva.


2.2. Narrativa e dramaturgia da experiência

A narrativa da instalação é sensorial e processual, sem enredo linear ou progressão dramática evidente. A experiência organiza-se através de estados de intensidade subtil que orientam a atenção do visitante ao longo do tempo.


Ao entrar no espaço, o visitante encontra uma escultura branca em posição fetal, reduzida à forma essencial. A figura sugere recolhimento, vulnerabilidade e suspensão. À sua volta, a areia move-se continuamente, num fluxo lento e persistente. A transformação não incide sobre o corpo, mas no ambiente que o envolve, deslocando o foco da ação para o contexto.


A dramaturgia constrói-se na tensão entre imobilidade e movimento. O corpo permanece estável enquanto o mundo à sua volta se reorganiza. Não há clímax nem resolução; há continuidade. A erosão manifesta-se como condição constante, não como acontecimento.


Para além da dimensão sensorial, a instalação assume um caráter conceptual e relacional. A areia é simultaneamente elemento material e elemento biográfico, atravessando a minha ligação entre duas geografias marcantes, o mar/praia da Figueira da Foz e o deserto dos Emirados Árabes Unidos. Entre estas paisagens, a areia torna-se ponto de continuidade e metáfora de identidade moldada pelo tempo e pelo território.


2.3 Experiência

A experiência proposta é contemplativa e atmosférica. O visitante não ativa diretamente o sistema, mas é convidado a permanecer e observar. A atenção é guiada por transformações graduais e por microvariações no comportamento da areia.


Independentemente da configuração espacial escolhida, seja através de camadas de projeção, de um plano horizontal que sustenta a escultura, ou de uma base que introduz uma dimensão simbólica de repouso, a experiência mantém a mesma lógica fundamental: uma presença estável inserida num campo instável.


A instalação trabalha a perceção do tempo através do movimento contínuo da areia. A estabilidade aparente do corpo contrasta com a reorganização constante da paisagem. A obra não procura produzir choque ou interação imediata, mas instaurar um espaço de desaceleração.


Dessa forma, a experiência não depende de uma configuração específica, mas da relação entre forma imóvel e ambiente em transformação. Cada variação de desenho aprofundará essa relação através de soluções espaciais distintas, mantendo inalterado o núcleo conceptual.


2.4. Meditação estética e linguagem visual

A linguagem estética é orientada por elementos simbólicos e pela materialidade. A areia é tratada como linguagem visual, com comportamento orgânico e granular, e o corpo surge como forma clara, escultural e identificável, mantendo a obra ancorada na dimensão humana.


A estética privilegia, assim, a forma essencial do corpo, a ausência de detalhe anatómico excessivamente realista, a textura granular da areia e o contraste entre imobilidade e fluxo.


Estudos de materialidade e forma

No âmbito da fase de conceptualização, foram desenvolvidos diversos moodboards de pesquisa e inspiração, focados em texturas, materialidades e referências visuais associadas ao conceito de erosão, ao corpo humano e à areia. Estes moodboards funcionam como ferramentas de exploração estética simbólica destes elementos focais do conceito. Mais do que reunir imagens de referência, procurei mapear possibilidades formais coerentes com a intenção definida, servindo como apoio ao desenho da instalação e à definição da sua identidade sensorial e visual.


Alguns dos moodboards publicados no Diário de Bordo:


  • Moodboard 1: Areia e Dispositivos
    Moodboard 1: Areia e Dispositivos
  • Moodboard 2: Areia e Instalações artísticas
    Moodboard 2: Areia e Instalações artísticas
  • Moodboard 3: Corpo
    Moodboard 3: Corpo
  • Moodboard 4: Estética simbólica
    Moodboard 4: Estética simbólica


2.5. Desenho

Nesta configuração, o corpo não é visualmente erodido. Surge como presença escultórica, estável e recolhida, numa posição fetal que evoca vulnerabilidade, origem e suspensão. A erosão manifesta-se no espaço envolvente, através da projeção de areia em movimento contínuo que circunda a forma sem a dissolver.


A transformação não atua diretamente sobre o corpo, mas no contexto que o envolve. A areia move-se, reorganiza-se, flui à volta da escultura, sugerindo que o tempo e as forças externas operam de modo silencioso e persistente. O corpo permanece aparentemente intacto, mas inserido num campo instável.


Esta escolha desloca a erosão do plano físico literal para um plano conceptual e atmosférico. A escultura torna-se ponto fixo num território em constante mutação, sublinhando a tensão entre permanência e transformação. A posição fetal reforça a ambiguidade entre repouso, proteção e regressão à origem.


A experiência é contemplativa. O visitante observa a relação entre corpo imóvel e paisagem instável, sendo convidado a refletir sobre a erosão como condição envolvente e inevitável.


Ilustração do conceito, não representa o design final da instalação:


  • Ilustração do conceito 1: Estudos conceptuais, areia e corpo.
    Ilustração do conceito 1: Estudos conceptuais, areia e corpo.
  • Ilustração do conceito 2: Estudos conceptuais, areia e corpo.
    Ilustração do conceito 2: Estudos conceptuais, areia e corpo.

Ilustração do conceito: Estudos conceptuais, areia e corpo.




O desenho da instalação foi explorado através de três variações formais, mantendo o mesmo núcleo conceptual. Esboços para as seguinte variações encontram-se neste



Variação 1: Instalação em camadas

Nesta hipótese, a instalação combina escultura e projeção de vídeo em diferentes planos. A areia é projetada em camadas que constroem um ambiente envolvente à volta da figura. A sobreposição entre planos físicos e digitais reforça a ideia de erosão como campo expandido.


Variação 2: Ecrã horizontal ou projeção vertical, e escultura sobreposta

Nesta configuração, um ecrã horizontal ou projeção por cima de uma superficie, exibe uma animação ou sistema programado de partículas de areia. Sobre esse plano repousa a escultura fetal. A areia move-se em torno da forma, criando a sensação de que o corpo emerge de um território instável. Aqui, a tecnologia pode assumir forma de vídeo ou programação generativa, mantendo aberta a decisão técnica para a fase de prototipagem.


Variação 3: Escultura sobre almofada com projeção

Nesta hipótese, a escultura repousa sobre uma almofada branca que funciona como base. Aqui, a almofada introduz uma tensão conceptual entre conforto e instabilidade. Associada ao repouso, à proteção e ao abrigo, torna-se aqui o suporte de um processo contínuo de transformação. O gesto de deitar ou descansar deixa de ser estático e passa a implicar deslocamento e desgaste, sublinhando a ilusão de estabilidade. A projeção de areia envolve tanto a almofada quanto o espaço circundante, reforçando a ambiguidade entre abrigo e exposição.

Esta configuração estabelece também uma ligação conceptual com Telematic Dream de Paul Sermon (2025), na medida em que a cama ou superfície de repouso se torna território simbólico de presença e mediação tecnológica. Contudo, ao contrário da dimensão relacional daquela obra, aqui a experiência permanece contemplativa.


3. Conclusão

A fase de conceptualização permitiu consolidar a instalação contemplativa como direção principal do projeto. A hipótese interativa inicialmente considerada revelou-se menos coerente com a dimensão meditativa e atmosférica que se foi afirmando ao longo do processo. Ao centrar o desenvolvimento na presença escultórica envolvida por um campo de areia em constante movimento, o projeto reforça a erosão enquanto condição envolvente e não enquanto reação imediata.


A conceptualização tornou possível clarificar o conceito, estruturar a narrativa e definir os princípios experienciais que orientam a obra. As diferentes variações de desenho exploradas não constituem soluções concorrentes, mas aproximações formais a um mesmo núcleo conceptual, testando modos distintos de materializar a tensão entre permanência e transformação.


Neste momento, sinto que o conceito se encontra mais claro e mais próximo daquilo que quero realmente realizar. A próxima etapa será um exercício de aproximação material a esta visão, procurando perceber como a escultura, a areia em movimento e o espaço expositivo podem coexistir de forma coerente e que ferramentas poderão auxiliar o seu desenvolvimento.



4. Referências Bibliográficas


Baptista, A. (2025, 29 de novembro). 01. Inspiração | Paul Sermon. https://armandabaptista1.wixsite.com/ddb25/post/01-inspiração-paul-sermon




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