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02. Relatório: Gatilho

  • Writer: Armanda Baptista
    Armanda Baptista
  • Mar 1
  • 4 min read

Updated: Mar 4


1. Introdução

Na continuidade da fase de pesquisa e reflexão iniciada na etapa da inspiração, surgiu a necessidade de identificar um ponto de ancoragem conceptual que permitisse avançar para a definição do projeto em PMAD. Nesse processo, tornou-se pertinente reconsiderar o trabalho anteriormente desenvolvido nos módulos de Videoarte (Figura 1) e Média-Arte Digital (Figura 2), não apenas como antecedentes académicos, mas como possíveis fundamentos para uma investigação mais aprofundada. O presente relatório centra-se, assim, na identificação do gatilho conceptual que orienta esta nova fase e na exploração inicial das suas potencialidades no contexto de uma instalação artística.



Figura 1: Ponto de Encontro
Figura 1: Ponto de Encontro

Nota. Trabalho desenvolvido no contexto do módulo de Videoarte, por Armanda Baptista, 2025



Figura 2: From Sand
Figura 2: From Sand

Nota. Trabalho desenvolvido no contexto do módulo de Média-Arte Digital, por Armanda Baptista, 2025




2. Gatilho

A hipótese de retomar os projetos anteriores revelou-se consistente, uma vez que ambos constituíam já uma progressão conceptual. No módulo de Videoarte, o trabalho foi desenvolvido no âmbito da criação de um autorretrato. Em Média-Arte Digital, apesar da liberdade temática, optei por aprofundar o mesmo universo conceptual, explorando a natureza humana em articulação com um material granular natural, a areia, e trabalhando simbolicamente a relação entre corpo, identidade e matéria.


Esta escolha não foi apenas conceptual, mas também biográfica. De forma parcialmente subconsciente, associei a areia à minha origem na Figueira da Foz, marcada pela proximidade ao mar. Posteriormente, essa associação ganhou uma nova camada de significado ao vir trabalhar para os Emirados Árabes Unidos, onde o deserto domina a paisagem envolvente. A partir desta ligação emergiu a ideia da erosão das rochas e do processo lento de formação da areia ao longo de milhões de anos, sugerindo paralelismos com transformação, tempo e condição humana. Do ponto de vista técnico, ambos os trabalhos recorreram essencialmente a ferramentas de inteligência artificial como o Midjourney e Runway, combinadas com vídeo e edição em Adobe After Effects, articulando processos digitais com uma reflexão sobre materialidade e organicidade.


Neste contexto, o tema revelou-se como um verdadeiro gatilho para a continuação do projeto. A consciência de que se tratava de um universo conceptual ainda não esgotado, e que gostaria de ter continuado a explorar fora do doutoramento mas não tive oportunidade, levou-me a considerá-lo como ponto de partida para os passos seguintes. Assim, inicialmente, fiquei determinada a aprofundar este trabalho, expandindo-o para além do ecrã digital e procurando transpor o seu núcleo conceptual para um formato de instalação artística.


2.1 Ideação e exploração conceptual

Após reconhecer o potencial de continuidade dos trabalhos desenvolvidos em Videoarte e em Média-Arte Digital, o tema “Erosão e o Corpo” passou a funcionar como ponto de partida para a fase seguinte. Nesta etapa, o objetivo deixou de ser justificar a origem do tema e passou a ser refiná-lo, testando possibilidades de tradução do universo digital para uma instalação física e experiencial.


Com esse propósito, elaborei um conjunto de esboços conceptuais e notas de exploração, procurando clarificar a intenção do projeto e identificar caminhos de abordagem. A ideia “from dust to dust” manteve-se como síntese orientadora, articulando processos de transformação, impermanência e pertença aos ciclos naturais, agora pensados no contexto da presença corporal e do espaço.




Erosão como processo e metáfora

Nos estudos realizados, a erosão foi compreendida como um processo contínuo, inevitável e silencioso, capaz de operar simultaneamente sobre a matéria, o corpo e a identidade. Mais do que fenómeno natural, passou a ser tratada como metáfora do modo como o tempo e forças externas moldam a existência, não através de um evento único, mas pela repetição acumulativa de pequenas ações, como o vento, a água, a fricção, a pressão e o contacto repetido.


A partir desta perspetiva, o corpo foi pensado como “topografia viva”, vulnerável e efémera, sujeito a desgaste, deslocamento e reconfiguração. A erosão surge, assim, menos como destruição e mais como transformação contínua da forma.


Materialidades conceptuais

A areia consolidou-se como materialidade central por concentrar em si a própria história da erosão e do tempo. A areia aparece como elemento que se acumula e se dispersa, deixando marcas instáveis e efémeras, tornando visível a fragilidade do registo e a impermanência da identidade.


Entre as hipóteses visuais exploradas, destacou-se a ideia do corpo como negativo ou ausência. Em vez de representar o corpo diretamente, este surge através do vazio deixado na areia, como um molde, sulco ou pegada. O corpo torna-se visível pela ausência de matéria, sugerindo simultaneamente presença e desaparecimento.


A água foi igualmente considerada como materialidade complementar, enquanto agente escultor da erosão e, ao mesmo tempo, elemento associado à vida. A sua presença introduz uma ambivalência produtiva entre desgaste e geração, apagamento e continuidade.


Conexões conceptuais e expansão do tema

Para além da relação entre corpo e matéria, os esboços permitiram aproximar a erosão de outros conceitos, em particular memória e tempo. A memória foi entendida como processo erosivo interno, que se altera, se desgasta e perde contornos, tal como uma paisagem transformada por forças lentas. Nesta lógica, a erosão não é o oposto da vida, mas o modo como a vida atua sobre a matéria.


Primeiros indícios de experiência e interação

Nesta fase começaram também a emergir intenções sobre a experiência do público. A permanência do espectador foi pensada como parte integrante do dispositivo, uma vez que a erosão, enquanto processo, exige duração e observação. Quem passa rapidamente apreende pouco; quem permanece testemunha a transformação e o desgaste em curso.



3. Conclusão

Deste modo, os esboços conceptuais ajudaram a clarificar que a erosão não é apenas o tema do projeto, mas também um princípio estrutural da obra. A fase de gatilho e ideação permitiu consolidar o tema “Erosão e o Corpo” não apenas como conteúdo conceptual, mas como princípio estruturante da obra. O passo seguinte consistirá em aprofundar a definição formal e técnica do dispositivo, explorando de que modo estas intenções conceptuais podem materializar-se no espaço expositivo.



4. Lista de Figuras

Figura 1

Projeto Videoarte: Ponto de Encontro


Figura 2

Projeto Média-Arte Digital: From Sand

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