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03. Relatório: Intenção

  • Writer: Armanda Baptista
    Armanda Baptista
  • Mar 2
  • 4 min read

Updated: Mar 4


1. Introdução

Após a fase de inspiração e a identificação do tema “Erosão e o Corpo” como gatilho conceptual, procurei, nesta etapa seguinte, explicitar a intenção que orientará o desenvolvimento do projeto e formular uma visão mais clara do propósito da obra, ainda que não totalmente definitiva, mantendo um caráter exploratório.


Assim, a intenção não define ainda a forma final do dispositivo, mas assume uma posição relativamente ao modo como o tema poderá ser ativado e à experiência que se pretende proporcionar ao espectador. Em ambas as hipóteses, o objetivo é desenvolver uma instalação artística de natureza conceptual, centrada na relação entre corpo, tempo e transformação. A diferença não reside no conceito, mas no modo como a experiência é construída.


Neste momento, colocam-se duas possibilidades distintas. Uma passa por abordar “Erosão e o Corpo” através de uma instalação ambiente e contemplativa, onde a transformação é observada. A outra propõe que a erosão não seja apenas ilustrada, mas tornada experiência interativa, permitindo que o participante, de alguma forma, influencie ou altere o estado e a dinâmica visual e física da obra.


Interessa criar uma situação em que o tempo, a vulnerabilidade da forma e a relação entre presença e desaparecimento possam ser sentidos de modo direto. A intenção nasce dessa necessidade de dar corpo a uma reflexão sobre impermanência, procurando transformá-la numa experiência partilhada.


2. Intenção

A intenção central do projeto é tornar sensível a erosão enquanto condição existencial, compreendendo-a como processo contínuo, silencioso e inevitável que molda matéria, corpo e identidade. Mais do que representar o desgaste, pretende-se operar segundo a lógica da transformação lenta e acumulativa, colocando o tempo no centro da experiência.


Simultaneamente, há a intenção de manter uma legibilidade clara dos elementos estruturantes do projeto, nomeadamente o corpo e a areia, enquanto presenças reconhecíveis. Essa identificação não será puramente simbólica, mas procurará articular dimensões físicas e digitais, explorando a relação entre materialidade e virtualidade como parte integrante do conceito.


Interessa trabalhar nessa tensão entre o que é tangível e o que é mediado tecnologicamente, permitindo que a erosão se manifeste tanto como processo visual quanto como condição espacial e corporal.


Intenção A: Instalação ambiente e experiência contemplativa

Numa primeira hipótese, a intenção consiste em criar uma instalação imersiva onde o espectador assume uma posição predominantemente observadora. O corpo do visitante não intervém diretamente no sistema, mas é envolvido pela dinâmica visual, sonora e espacial da obra.


A experiência constrói-se na permanência e na contemplação. A erosão manifesta-se como processo autónomo, independente da ação do público, reforçando a ideia de inevitabilidade e de transformação contínua. O espectador é convidado a reconhecer o tempo em ação e a confrontar-se com a vulnerabilidade da forma.


Esta direção dialoga com a lógica experiencial identificada em Force, de Kohei Nawa (Baptista, 2026), anteriormente analisada, onde forças invisíveis se tornam sensíveis através de um campo imersivo que não depende da intervenção direta do público. Tal como nessa obra, a transformação não é provocada pelo espectador, mas revelada à sua percepção.


Intenção B: Participação e alteração do estado da obra

Numa segunda hipótese, a intenção desloca-se para uma experiência em que o participante se torna parte integrante do processo. A presença corporal deixa de ser apenas observadora e passa a integrar o sistema, podendo influenciar ou alterar o estado da obra.


Aqui, a erosão não é apenas contemplada, mas co-experienciada. A relação entre corpo e matéria torna-se mais direta, enfatizando a interdependência entre presença e transformação. A obra assume uma dimensão relacional, onde a ação ou simples presença do participante deixa marca, ainda que efémera.


Esta abordagem encontra ressonância na dimensão relacional explorada em Telematic Dream, de Paul Sermon (Baptista, 2025), também discutida na fase de inspiração, onde o corpo do participante integra o dispositivo e altera a experiência mediada tecnologicamente.



3. Conclusão

Nesta fase do processo, encontro-me ainda a consolidar o conceito que sustentará o desenvolvimento do projeto. As duas intenções delineadas não representam soluções fechadas, mas direções possíveis que permitem aprofundar a reflexão sobre a relação entre corpo, tempo e transformação.


Neste momento, procuro sobretudo compreender a posição que desejo assumir enquanto criadora, isto é, que tipo de relação quero estabelecer entre corpo, tempo e transformação, e que lugar atribuo ao espectador dentro dessa experiência. Ambas partem do mesmo núcleo conceptual e procuram tornar sensível a erosão enquanto condição que atravessa matéria e identidade. O que varia é a posição do espectador, entre uma relação mais contemplativa e uma participação mais direta no processo.


Mais do que definir soluções formais, esta etapa tem sido um exercício de alinhamento entre aquilo que me move conceptualmente e a forma como desejo que essa dimensão seja vivida por quem experienciar a obra. A consolidação do conceito permitirá articular de modo mais consciente a experiência pretendida com as escolhas a desenvolver na fase de conceptualização.



4. Referências bibliográficas


Veiga, P.A. (2021). Método e registo: uma proposta de utilização da a/r/cografia e dos diários digitais de bordo para a investigação centrada em criação e prática artística em média-arte digital. Rotura - Revista De Comunicação, Cultura E Artes, (2) (pp. 16-24). https://publicacoes.ciac.pt/index.php/rotura/article/view/47


Baptista, A. (2025, 29 de novembro). 01. Inspiração | Paul Sermon. https://armandabaptista1.wixsite.com/ddb25/post/01-inspiração-paul-sermon


Baptista, A. (2026, 2 de janeiro). 01. Inspiração | Kohei Nawa. https://armandabaptista1.wixsite.com/ddb25/post/01-inspiração-kohei-nawa

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